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De prostituta a passista e católica fervorosa: a história de Maria Lata D’Água, que sambava com 20 litros de água na cabeça

Todo Carnaval, o desfile da Portela tinha o mesmo ritual. Como num número de mágica, a passista Maria exibia ao público uma lata de metal com capacidade para 20 litros, vazia

Um homem entrava na avenida com outras latas, estas cheias d’água, e enchia a de Maria, deixando apenas um espaço de quatro dedos. Ao som dos tamborins da bateria, Maria pegava a lata cheia d’água, colocava na cabeça, dava alguns passos para testar o equilíbrio e saía sambando, muitas vezes, descalça, avenida adentro.

“Muita gente não sabe nem meu nome”, diz à BBC News Brasil, aos 85 anos, Maria Mercedes Chaves, a Maria Lata D’Água, a famosa passista da Portela, que inspirou a música “Lata D’Água” (“Lata d’água na cabeça / Lá vai Maria / Lá vai Maria”).

Talvez não saibam também que, além de estrela do Carnaval, Maria foi prostituta na zona de meretrício do Rio de Janeiro, dançou em palcos europeus e se tornou ícone da comunidade católica carismática Canção Nova, pela qual lançou um livro sobre sua vida.

Muito religiosa, se identifica principalmente com duas personagens da Bíblia: Maria Madalena, prostituta que, segundo a história, foi a primeira pessoa a ver Jesus após a ressurreição, e a samaritana do poço, com quem Jesus conversou e que se tornou sua seguidora. “Somos iguais, Deus me usou muito para contar a história delas”, diz ela.

Brincando no caminho até a água

Maria nasceu em 1933, em Diamantina, Minas Gerais. Perdeu o pai aos dois anos de idade.

Com a mãe e o irmão, teve infância simples, mas se divertia. No vaivém da casa da família até a bica onde buscavam água, Maria brincava de equilibrar latas na cabeça, o que serviu de treino para a personagem que mais tarde incorporaria. Sua mãe era lavadeira e a família também vendia lenha, catada pelas crianças.O catolicismo veio de berço. Seu nome, Maria Mercedes, é homenagem a Nossa Senhora das Mercês, outra designação da Virgem Maria. Foi batizada e ia à missa todos os domingos, mas conta que sempre foi uma menina travessa. “Eu queria liberdade”, diz ela.

Quando Maria se aproximava do final da infância, sua mãe foi morar no Rio de Janeiro, onde arrumara trabalho como empregada doméstica. As crianças ficaram morando com a avó por alguns anos, e, depois que sua mãe se casou com um funcionário do porto da cidade, foram morar com eles numa casa confortável no subúrbio de Belford Roxo, cidade bem próxima ao Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense.

“Na escola, fiz amizades com umas meninas que gostavam de faltar às aulas. A gente fingia que ia para a escola, mas na verdade íamos para a praia, para o cinema”, diz ela. Foi numa sala de cinema que teve uma de suas primeiras experiências sexuais pagas. “As pessoas estão falando agora dessas coisas de abuso de criança, mas isso é antigo”, diz ela.

A mãe, muito rígida, fazia de tudo para controlar a filha adolescente, mas não conseguia. Maria fugia dos castigos em casa e passava dias dormindo na rua. A mãe ia atrás, levava-a para casa, mas Maria sempre fugia de novo. Isso aconteceu três vezes. “Quando ela soube que eu não era mais menina (virgem)…”, diz Maria, e faz um gesto com a mão, como quem diz, “largou”.

‘Quer ser artista?’

“A vida na rua era muito difícil, então, quando me chamaram para morar numa casa de prostituição, aceitei”, conta ela. Desse período, lembra que tomava remédios para passar as noites acordada e bebia “para aguentar o trabalho”.

Passou um breve período morando com um homem que, no início, parecia gentil, mas depois, passou a espancá-la com frequência. Voltou à casa de prostituição, onde foi protegida por um cafetão quando seu ex tentou encontrá-la.

Um dia, estava na porta, quando um homem que passava perguntou se ela queria “ser artista”. Foi assim que subiu num palco pela primeira vez, na peça “A Vida do Palhaço Dudu”. Fazia o papel de uma das amantes de palhaço, Margarida, e tinha uma fala. Com a peça, ganhou dinheiro o bastante para deixar a casa de prostituição e se mudar para uma pensão.

Ao final da temporada, foi convidada para participar de outro show, este de passistas e ritmistas que dançavam e tocavam para turistas que chegavam de navio. Foi nessa época que conheceu Mercedes Baptista, “a primeira bailarina negra que dançava de ponta”, como diz Maria, com admiração, e começou a frequentar suas aulas de dança folclórica.

Certa noite, na rua, viu uma senhora fazer um número de dança com uma lata d’água na cabeça e pensou: “Eu sei fazer isso!”

Levou a ideia ao Salgueiro. O presidente não aceitou que o número entrasse nos desfiles, mas alguém lhe disse “vai na Portela”. Na época, a escola era patrocinada pelo bicheiro Natalino José do Nascimento, conhecido como Seu Natal.

“Ele me deu muito apoio, foi ele quem me aceitou”, diz ela. “Quando cheguei na quadra, vi uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. As cores eram azul e branco, as cores da Nossa Senhora. Sempre fui devota dela. Disse, ‘é esta que eu quero'”. Passou mais de vinte anos desfilando pela escola.

‘Marie Bidon D’eau’

A escola dava as roupas para o desfile, mas não pagava pela apresentação. Maria ganhava a vida fazendo shows e, às vezes, se prostituindo.

“Sempre bebi muito para ter coragem. Bebia antes de todos os desfiles”, diz ela.

Na época, era comum que grupos de dança passassem temporadas se apresentando fora do país. Sua primeira viagem foi para o Paraguai. Depois, se mudou para a Itália e, em seguida, para a Suíça, onde conheceu seu marido, hoje morto.

Maria conta que as passistas – negras, na maioria – sofriam muito racismo.

“Para viajar para a Europa, exigiam um bonito perfil. Por causa do meu nariz, que é largo, eles pediam para eu fazer cirurgia plástica. Várias das minhas amigas operaram o nariz, o bumbum. Eu dizia, ‘não, se me quiser, vai me querer assim, mesmo’. Eu me olhava no espelho e pensava, ‘não vou ser eu’. E no final das contas eu era a mais bonita!”, diz ela, e cai na gargalhada.

“A única parte do corpo que me incomoda é meu cabelo. Sempre usei peruca. Eu me sentia com cara de velha com meu cabelo natural”, diz ela. “Eu pedi a Deus, ‘não me dê pelancas!’, e até hoje não tenho. Só tenho estas rugas de sorriso. Mas sem peruca, envelheço.”

Em 1982, já casada, se mudou de volta para o Brasil. Continuou participando do Carnaval e se apresentando, mas também passou a frequentar igrejas ligadas à Renovação Carismática, corrente que surgiu na década de 1960 tentando adotar um estilo mais moderno para a prática do catolicismo e que, em muitos aspectos, lembra igrejas evangélicas pentecostais.

Foi nessa época que conheceu a Canção Nova, comunidade de missionários sediada em Cachoeira Paulista, que tem sua própria universidade, canais de televisão e rádio.

“Em 1990, participei de um retiro deles e dei meu primeiro testemunho (depoimento sobre sua vida aos membros da igreja). Depois daquele dia, nunca mais desfilei”, diz ela.

Fez formação vocacional e, depois da morte de seu marido e sua mãe, se mudou para Cachoeira Paulista.

Há dois meses, decidiu deixar sua casa e se mudar para um asilo católico numa cidade vizinha. Lá, reza, vai à missa e joga conversa fora com funcionários e colegas, a quem ela se refere, brincando, como “as velhas”.

“Sempre disse que, quando ficasse mais idosa, moraria numa casa de repouso. As pessoas me ofereceram companhia, mas eu não quis. Sempre quis ter minha liberdade. Sou o que sou. Nunca mudei.”

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47395630

Fonte: BBC News Brasil em São Paulo/Luiza Franco – 03 de Março de 2019

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