ColunistasDestaquePr. Zaqueu Sampaio

Identidade

Diga-me, Quem é você?

Qual a sua verdadeira identidade? Falar sobre como nos vemos não é o mesmo que traduzir quem somos, afinal, não somos estáticos; até as rochas sem vida estão em constante mudança. Definir-se é tarefa desafiadora, não somente pela limitação de expressões adequadas para o sentir, mas pela própria dificuldade inerente a olhar para si mesmo pelo lado de dentro e ver mais que a superfície, de observar por debaixo da armadura e ver além do aparente admitindo com sinceridade que nem sempre a embalagem apresenta a realidade do conteúdo.

Não bastasse isso, digo com propriedade; é preciso ter muita coragem para trazer à luz aquilo que encontramos no subterrâneo da alma. Não é missão impossível; impossível seria fazê-lo honestamente sem confrontar o próprio orgulho e vestir-se de humildade e gratidão. Então, suplico ao leitor por misericórdia. Tente olhar para as próximas linhas com mais discernimento que julgamento, com mais compaixão que preconceito, com mais amor que rancor. Pois no fim das contas, penso não falar da identidade de um só homem!

Para começar, ouso dizer: sou livre no pensar e prisioneiro de mim mesmo. Quisera ser livre de mim, mas ainda não alcancei a alforria. Olhando de perto sinto-me mais escravo que livre. Não escravo do pecado, da culpa ou do diabo; esses malditos inimigos foram vencidos pelo que assumiu o meu lugar na morte.

O ferrolho da porta está do lado de dentro e não por fora. É estranho, mas o meu algoz se parece comigo! Ele sente minha dor, geme por minha angústia, chora as minhas lágrimas, mas não abre minhas algemas. Será que ele sou eu? Afinal, quem sou? A identidade que hoje tenho é falsa ou verdadeira? Por um lado, sou como a velha camisa do matuto remendada com tecidos de cores diferentes em várias partes.

Não sou uniforme, irretocável e sem defeitos; não passo de um amontoado desorganizado de dúvidas, certezas e contradições. Sou como um quebra-cabeça com dezenas de peças que simplesmente não se encaixam (ao menos eu não consigo encaixá-las).

Também pudera, meus atos me arrastaram à um lugar estranhamente educativo onde estou sendo forjado na dor, pressionado na morsa das calúnias, espremido na moenda dos julgamentos tão maldosos quanto malignos, mas nem tudo é infernal, pois tenho aprendido a reconhecer a dinâmica e a didática da Vida. Sei que cresci, mas não o bastante; ainda não estou pronto. Pego carona nas palavras do poeta “R.G.” para dizer que estou em construção e que a obra deve demorar. Meu verdadeiro eu, minha verdadeira identidade está sendo formada.

Às vezes penso que entendi a vida, o homem e a mim mesmo, mas são apenas alucinações de um “eu” que busca se conhecer a cada fim de tarde ou a cada conversa de Bíblia e peito abertos no café da manhã na sala da minha casa. Agora, me percebo tão estável e seguro quanto um caniço na tempestade. Aliás, que tempestade esses dias! Mas já disse antes; as tempestades passam e o Sol já está nascendo logo ali.

Quem sou eu? Apenas um viajante trilhando com certa solidão a estrada da vida. Solidão sim, mas não por caminhar sozinho. Aprendi que solidão não é estar só; solidão é se sentir só, e isso, pode ocorrer em vários aspectos. A verdade é que há muitos por aqui, mas todos me parecem cansados e solitários. Me pergunto:

Se todos caminham para o mesmo destino, por que ninguém aqui tem amigos?

Por que ninguém confia em ninguém? Por que todos desconfiam que há algo por trás da cortina? Isso rouba a paz, faz da vida uma contínua guerra fria onde as palavras não querem dizer o que realmente dizem e em tudo há uma segunda intenção com benefícios sujos, contaminados pelo egoísmo e pela maldade humana. Mas espere! Esse não é o lugar onde todos se chamam irmãos, amigos e companheiros? Se o sal perdeu o sabor já não há esperança para os que dependem dele.

Esse comportamento faz da luz uma penumbra, do mapa um borrão malfeito e da bússola um lindo desenho no papel; essas coisas podem ter sua beleza, mas são inúteis para o propósito pelo qual foram criadas. Cristianismo sem o amor de Cristo? Evangelho sem Graça? Salvação sem Cruz? Desconfiança e falsidade entre irmãos e amigos? Não faz sentido! Talvez por isso, muitos chegaram a acreditar no eco que a todos sussurra da escuridão dizendo que viver já não vale a pena. Alguns sucumbiram à dor e morreram à beira do caminho, mas a maioria se esforça descomunalmente para não esquecer a razão de continuar subindo a montanha.

Quanto a nós, pobres moribundos, seguimos viagem na esperança de encontrar algo além de nós mesmos. Junto a meus passos percebo as pegadas de um Estranho invisível. É como se, de alguma maneira, ele desejasse me fazer consciente de que se importa comigo. Isso me faz sentir às vezes seguro, mas não sempre. Parece que esse Estranho me conhece muito bem, mas não posso dizer o mesmo sobre mim. Talvez alguém um dia me dê certeza de quem sou. Quem sabe seja Ele! Espero que sim.

Quanto ao processo, hoje me conheço mais que ontem, mas nem tanto! O que sei com certeza, é que já estou apegado ao dono invisível dos passos, pois mesmo sem conhece-Lo como deveria, sei que Ele é amigo além dos belos discursos e das promessas facilmente quebradas.

Ele não é como os gratos ingratos que esquecem o favor do que a eles se doa logo que estão saciados. Não é como a maioria dos santos que são ávidos por receber amor, graça e perdão, mas em igual medida são mesquinhos e miseráveis para olhar ao que precisa e ao invés de julgar, com misericórdia estender-lhe a mão.

Não se engane! Não há rancor, não há ódio, nem mesmo ressentimento. Há apenas a decepção com todos os que se parecem tanto com meu antigo ser por dentro e por fora, pois insistem em usar lupas poderosas para olhar pela janela à fora, mas visualizam uma fotografia com efeitos mágicos todas as vezes que são chamados a olhar para o espelho.

Não uso palavras minhas, mas as de um grande Mestre que chamou esse comportamento de hipocrisia, e, mesmo assim, o tal Mestre tomou o veneno que era para eles tomarem, ou melhor, para nós, e o fez por amor para que então pudéssemos beber água pura. Garanto que estou tentando honrar Seu sacrifício.

Por agora, sigo viagem. Vou seguindo em frente sem olhar para trás. Um passo após o outro faço a mim mesmo a pergunta incômoda: quem sou eu? Quanto a isso, posso afirmar com total segurança; não sou um completo ignorante, pois nessa estrada aprendi algo sobre mim e isso é o bastante.

Ando pelo que sei agora e o que sei, nem mesmo a morte poderá roubar: sou simplesmente um filho amado do Pai. Isso para mim deixou de ser mais uma daquelas frases de efeito proferidas em discursos religiosos, repletas de beleza e vazias de significado pessoal. Não basta saber, tampouco conhecer; é preciso estar constituído dessa Verdade e ser consumido por esse Amor, até que nada mais importe.

Quem é você?

“Não se apavore nem desanime, pois Eu o Senhor estarei com você por onde você andar”. Josué 1:9

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Fonte: Zaqueu Sampaio – Pastor – 30 de Março de 2019

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